Medicina Felina de A a Z

TOXOPLASMOSE – O GATO NÃO É O CULPADO


Myrian Kátia Iser Teixeira
Médica veterinária graduada pela UFMG
Mestre pela UNICAMP
Pós-graduada em Medicina Felina
Presidente da ABFel – Academia Brasileira de Clínicos de Felinos
Diretora da Anclivepa Minas
Membro da American Association of Feline Practitioners - AAFP
Sócia fundadora Gato Leão Dourado - Primeira clínica especializada em Medicina Felina de Minas Gerais

Apesar de gatos e outros e outros felinos fazerem o ciclo enteroepitelial do Toxoplasma gondii, menos de 1% da população felina participa da transmissão direta da doença. Os gatos só podem transmitir toxoplasmose através de oocistos eliminados nas fezes, porém esses oocistos só se tornam infectantes para o homem e outros animais quando esporulados e, para que aconteça essa esporulação, é necessário que essas fezes, contendo oocistos permaneçam por um período médio de três dias em condições ambientais favoráveis de aeração, umidade e temperatura quente. Além disso, os felinos somente eliminam oocistos pelas fezes por um período máximo de 21 dias, quando eles têm o primeiro contato com o Toxoplasma gondii, através da caça ou ingestão de carne e ou peixe crus ou água contaminada. A partir desse momento os gatos desenvolvem imunidade contra o agente e, mesmo tendo contato novamente com o protozoário, eles raramente voltam a excretar oocistos pelas fezes, pois já apresentam anticorpos contra a doença. Outro ponto importante a ser esclarecido é que os felinos apresentam o hábito de higiene cuidadoso e inerente à espécie, traduzido pela da lambedura frequente de seus pelos, ou seja, o gato higieniza-se diversas vezes ao longo do dia, praticamente extinguindo a presença de resíduos de fezes velhas no seu pelo. Portanto, o simples contato com o gato, com seu pelo ou ingestão de suas fezes "frescas" são insuficientes para promover uma infecção por toxoplasmose.
Todas essas informações dão o embasamento científico para afirmarmos que a transmissão de toxoplasmose através do contato direto com gatos é extremamente improvável. As principais formas de contágio para o homem são através da ingestão de carne e peixes crus ou mal cozidos que contenham cistos teciduais e alimentos e água contaminados.
Se fosse verdadeira a informação de que a principal forma de infecção pelo Toxoplasma gondii seja pelo contato direto com gatos, nós, médicos veterinários, principalmente, aqueles que se dedicam exclusivamente à medicina felina, seríamos doentes ou trabalharíamos somente paramentados com luva, gorro e máscara e, de forma alguma, pegaríamos nosso paciente felino no colo. Isso não ocorre conosco, pois conhecemos a doença, o ciclo do parasita e o verdadeiro papel do gato na transmissão da toxoplasmose.
Nós, médicos veterinários, somos profissionais compromissados e preocupados com os nossos pacientes assim como com a saúde pública. Mediante a veiculação de informações não fidedignas sobre essa doença através dos meios de comunicação de massa, muitos gatos podem ser abandonados, várias crianças chorar e apresentar consequente trauma psicológico e mesmo adultos e idosos chegam a sofrer com a separação de seus animais de estimação.
Portanto vamos pensar em prevenção contra a toxoplasmose, evitando a ingestão de carnes e peixes crus ou mal cozidos, de verduras e frutas sem higienização prévia e de água de origem não confiável e, ainda de leite não pasteurizado.


 

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