Medicina Felina de A a Z

Lipidose hepática felina

Myrian Kátia Iser Teixeira
Médica veterinária graduada pela UFMG
Mestre pela UNICAMP
 Pós-graduada em Medicina Felina
Presidente da ABFel – Academia Brasileira de Clínicos de Felinos
Diretora da Anclivepa Minas
Membro da American Association of Feline Practitioners - AAFP
Sócia fundadora Gato Leão Dourado - Primeira clínica especializada em Medicina Felina de Minas Gerais

A lipidose hepática felina (LHF) é um distúrbio hepatobiliar bastante comum aos gatos, caracterizado pelo acúmulo de gordura no fígado e colestase. Embora a lipidose tenha sido descrita inicialmente como idiopática, 95% dos gatos apresentam doença ou circunstância direta que provoca um estado catabólico e consequente concentração de gordura nos hepatócitos.  Portanto, nos casos de LHF, mediante um fator predisponente como obesidade e ou anorexia, gerada por estresse ou por uma série de enfermidades, ocorre lipólise periférica, resultando em acumulação de lipídeos no fígado. O metabolismo lipídico hepático  encontra-se comprometido devido à falta de nutrientes oriundos da dieta, como proteínas, aminoácidos e vitaminas necessários para um bom funcionamento hepático.
Os principais sinais clínicos da LHF são icterícia, inapetência, perda de peso, desidratação, letargia, sialorreia, hepatomegalia, ventroflexão cervical, devido à hipocalemia ou deficiência de vitamina B1, náusea, vômito, petéquias, equimoses e hematomas decorrentes da insuficiência dos fatores de coagulação. O quadro de encefalopatia hepática é menos frequente, mas pode ocorrer. As alterações clínicas associadas a essa encefalopatia são demência, olhar fixo, pressionar de cabeça, ataxia, nistagmo, cegueira, ptialismo, convulsão e coma. Outra manifestação clínica de rara ocorrência é a síndrome da fragilidade cutânea, caracterizada por uma extrema fragilidade da pele que é facilmente lesada e lacerada ao toque.
O diagnóstico é alicerçado no histórico, sinais clínicos, exames laboratoriais, de imagem e cito/histopatológicos.
Na anamnese da LHF, o tutor pode mencionar perda de peso, falta de apetite, apatia, mudança de alimentação, viagem recente e outras situações que podem gerar estresse para os gatos.
O hemograma pode evidenciar anemia não regenerativa, normocítica, normocrômica, leve a moderada e presença de poiquilocitose. O leucograma pode estar normal ou compatível com um leucograma neutrofílico de estresse.
Na bioquímica hepática há um aumento consistente das enzimas hepáticas alanina aminotransferase (ALT), aspartado aminotransferase (AST) e fosfatase alcalina (FA). A ALT chega a aumentar cinco a sete vezes acima do valor de referência e a FA encontra-se 10 a 15 vezes superior ao intervalo de normalidade. A gama glutamiltransferase (GGT) frequentemente está normal, somente aumentando em casos de colangite concomitante.
Outros achados laboratoriais incluem hiperbilirrubinemia, hipercolesterolemia, hipoalbuminemia, hipofosfatemia, hipomagnesemia, hipocalemia. Os testes de coagulação podem estar alterados pela deficiência de vitamina K e devem ser realizados em casos de punção aspirativa ou biópsia. A urinálise pode revelar lipidúria e bilirubinúria. A dosagem de tiroxina total (T4T) e da glicemia podem ser realizadas para avaliar o acometimento concomitante pelo hipertiroidismo e Diabetes mellitus respectivamente. Os testes para exclusão das retroviroses felinas, leucemia viral felina (FeLV) e imunodeficiência felina a vírus (FIV) devem ser usados rotineiramente em todos os pacientes felinos. O teste para coronavírus felino pode ser preconizado, uma vez que a peritonite infecciosa felina (PIF) pode causar icterícia nos pacientes felinos acometidos.    
As alterações radiográficas abdominais mais comuns são a presença de hepatomegalia (margem ventral do fígado além do arco costal), deslocamento dorsal e caudal do estômago e deslocamento caudal do rim direito. Ao estudo ultrassonográfico de pacientes com LHF, percebe-se hepatomegalia e hiperecogenicidade homogênea difusa no fígado. A ultrassonografia pode auxiliar no procedimento de punção aspirativa guiada e na avaliação de possíveis complicações como hemorragias após biópsia. Outra importância do exame ultrassonográfico é a possibilidade de detecção de alterações relacionadas a outras doenças ou hepatopatias como colangites, neoplasias e  obstrução de via biliar extra-hepática, que podem acontecer juntamente com o quadro de lipidose.
Os diagnósticos diferenciais incluem colangite, cirrose hepática, obstrução de via biliar extra-hepática, neoplasias, anomalia porto-sistêmica, Diabetes mellitus, hipertireoidismo, PIF, FeLV, FIV, toxoplasmose, platinosomose e septicemia.
A abordagem terapêutica da lipidose tem como pilares a nutrição de qualidade, o fornecimento de micronutrientes (aminoácidos e vitaminas), tratamento suporte, cuidados intensivos de enfermagem e correção da causa subjacente, se houver.
A base do tratamento para LHF é a nutrição. A alimentação, essencial o para sucesso da terapia, pode ser dada por via oral através de alimentação espontânea, com a oferta de alimentos mais palatáveis e ou aquecidos com o objetivo de melhorar o aroma ou forçada com o auxílio de seringa. Outras formas de fornecer alimento ao gato anorético é através  da implantação de tubos de alimentação, principalmente a sonda esofágica. A sonda nasoesofágica pode ser uma alternativa para o momento inicial do tratamento, enquanto o gato é preparado para uma esofagostomia.
O tratamento de suporte pode ser feito com fluidoterapia, antibioticoterapia e  antieméticos e protetores gástricos. A ondansetrona é indicada para os gatos que apresentam bastante náusea.
Os micronutrientes coadjuvantes do tratamento da LHF são as vitaminas do complexo B (B1 e B12), vitamina E como antioxidante, vitamina K para os casos de coagulopatias e os aminoácidos como taurina, arginina, L-carnitina e SaME. Outras opções medicamentosas são a silimarina e o ácido ursodesoxicólico mais comumente usados em casos de colangites associadas.  
O prognóstico para a LHF é reservado.  Mesmo aqueles gatos submetidos à tratamento adequado com  intenso suporte nutricional  e cuidados de enfermagem intensivos podem apresentar uma taxa de mortalidade de 40%. Os gatos não tratados satisfatoriamente chegam a mostrar 90% de mortalidade.

 

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