Medicina Felina de A a Z

Cuidados com o gato idoso

Myrian Kátia Iser Teixeira
Médica veterinária graduada pela UFMG
Mestre pela UNICAMP
Pós-graduada em Medicina Felina
Presidente da ABFel – Academia Brasileira de Clínicos de Felinos
Diretora da Anclivepa Minas
Membro da American Association of Feline Practitioners - AAFP
Sócia fundadora Gato Leão Dourado - Primeira clínica especializada em Medicina Felina de Minas Gerais

Inicio esse texto com uma pergunta filosófica: "A maior idade é a melhor idade?"

Se formos pensar que os gatos idosos continuam lindos e esbeltos, essa é uma grande vantagem frente aos cães e a nós, seres humanos. Os felinos mais velhos apresentam um aumento do requerimento energético diário e, ademais, eles não reduzem drasticamente a atividade física, quando comparado aos cães que normalmente vão passear na rua e a nós, humanos, que frequentamos academias na vida adulta.

Continuando a reflexão sobre "a melhor idade", acredito que gatos que recebem todo o aconchego e carinho dos tutores, assim como os cuidados de Medicina Felina preventiva como alimentação de qualidade devidamente adequada à sua faixa etária, check up regular, vacinação e vermifugação em dia e adequação ambiental realmente podem desfrutar de grande qualidade de vida e longevidade.

Um dos cuidados com o gato da melhor idade é o fornecimento de alimentação de qualidade e formulada de acordo com a faixa etária (7–12 anos: maduro, 12-15 anos: sênior, acima de 15 anos: geriatra). Tais alimentos devem conter ingredientes de alto valor biológico e alta palatabilidade. Os gatinhos mais velhos podem ter redução de olfato e paladar, logo o aquecimento dos alimentos e a oferta de alimentos mais palatáveis podem despertar maior interesse nesses pacientes.

A água deve estar sempre fresca e distribuída em vários locais da casa, pois há casos de alterações cognitivas e os gatinhos podem esquecer de beber água ou não lembrar do local, onde se encontra o bebedouro. É importante ressaltar que incentivar o aumento da ingestão beneficia o bom funcionamento renal. Os gatos idosos e geriatras podem apresentar com certa frequência o quadro de doença renal crônica (DRC). Esses gatos com DRC tendem a ter dificuldade de concentrar a urina, aumentam a frequência do ato de urinar e, consequentemente, bebem mais água na tentativa de evitar a desidratação.

Vacinação e vermifugação em dia, controle de endo e ectoparasitas, cuidados diários com a pelagem e profilaxia oral também fazem da rotina dos gatos mais velhos.

A realização de check up regulares é essencial! A partir de sete anos de idade, os gatos devem receber avaliações clínicas e realizar exames complementares anualmente. Os exames rotineiros incluem: exames de sangue, inclusive a dosagem do hormônio T4 e da glicemia, exames de urina e fezes, ultrassonografia, radiografias e ecocardiografia. Aos 12 anos, tais averiguações devem ser feitas com uma periodicidade menor, ou seja, a cada seis meses. Essas avaliações físicas e esses exames ajudam no diagnóstico precoce de várias doenças comuns da terceira idade do paciente felino como: doença renal crônica, hipertireoidismo, Diabetes mellitus, doença inflamatória intestinal, cardiopatias, hipertensão arterial, osteoartrite e distúrbios de cognição.

Algumas observações sobre alterações comportamentais e sinais clínicos também corroboram substancialmente para um diagnóstico rápido e uma abordagem terapêutica precoce e eficaz. Por exemplo, quando um gato começa a vocalizar, podemos pensar em diversas possibilidades e logo levá-lo para uma avaliação com o objetivo de fazer o diagnóstico diferencial entre as mais prováveis causas de vocalização, entre elas: o hipertireoidismo, a endocrinopatia mais comum dos gatos mais velhos, distúrbios de cognição, hipertensão arterial e cardiopatias. A polifagia, que é caracterizada pelo aumento do apetite pode ser vista pelos tutores como sinal de boa saúde, contudo se esse sinal vem acompanhado de emagrecimento, devemos pensar em hipertireoidismo, Diabetes mellitus e até mesmo em doença inflamatória intestinal em quadros iniciais. Já a redução de peso percebida juntamente com diminuição do apetite pode ser um sinal de doença renal crônica ou doença articular degenerativa. Se, além do emagrecimento e da queda do apetite, houver poliúria (aumento da frequência do ato de urinar) e polidipsia (aumento da ingestão hídrica), com a presença de urina bem clara, podemos estar diante de um paciente doente renal crônico. Já quando o gato apresentar vômito ou diarreia, é importante excluir parasitas e protozoários intestinais, doença inflamatória intestinal e até mesmo o linfoma alimentar. A redução do hábito de lambedura, diminuição do apetite, emagrecimento, apatia, dificuldade de subir e sinais discretos de dor podem descortinar um quadro de doença articular degenerativa, que acontece em 90% dos gatos com mais de 10 anos de idade. Além disso, devemos ficar atentos a qualquer mudança de comportamento como aumento ou diminuição de atividade, vocalização, alteração do ciclo vigília-sono, agressividade em função dos distúrbios de cognição.

É importante manter um ambiente tranquilo, limpo, quentinho e aconchegante, não esquecendo de propiciar alguns esconderijos como caminhas igloo e caixas de papelão. A adequação ambiental auxilia bastantes os gatos idosos, como, por exemplo, a disponibilização de modulares que facilitam as escaladas, uma vez que os gatos gostam de ambientes verticais e de lugares altos e, na terceira idade, alguns "vovozinhos", podem apresentar dificuldade em escalar e subir em camas e sofás, devido à problemas de osteoartrite. No quesito higiene, devemos lembrar de evitar caixas sanitárias altas com o intuito de facilitar a rotina diária de eliminação dos nossos gatinho idosos.

Outro ponto importante é evitar estresse e mudança de rotina para o gato da melhor idade, pois ele é mais sensível. Essa história de introduzir um filhote no lar, normalmente não é vista com bons olhos pelo gato vovô.

Para finalizar e não menos importante, o que não pode ficar fora do pacote é atenção, carinho e amor!

Nós, médicos veterinários, sabemos que vocês, tutores, relutam em levar o seu gato mais velho às clínicas, pois não querem estressá-lo. Contudo quanto mais o paciente felino se acostuma a uma clínica e aos veterinários, menos estressante será essa visita de check up, que é tão necessária e tanto garante a qualidade de vida para os bichanos. Uma boa opção é encontrar um Médico Veterinário Cat Friendly Practice de confiança. Esse profissional tem a preocupação de atuar minimizando o estresse para os gatos, ou seja, as suas características são: atualização técnica constante, capacidade de realizar um manejo confortável, contar com uma equipe treinada e, tudo isso, em um ambiente projetado harmonicamente e adequadamente para a espécie felina. Logo buscar clínicas com certificação Gold do programa internacional Cat Friendly Practice da American Association of Feline Practitioners faz toda a diferença para o seu amiguinho de estimação que, vamos e convenhamos, é um membro da sua família..

 

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