Gatualidades / Textos

Mas afinal, o gato gosta mais do dono ou da casa?
Cristiano Nicomedes


Já estamos no século XXI, mas ainda encontramos, muitas vezes, perguntas de algumas pessoas que trazem essa questão à tona: afinal, os gatos gostam mais da casa ou do dono. O interessante é que, no inconsciente coletivo, ou na consciência popular, se preferirem, o gato gosta infinitamente  mais da casa do que do dono. Invariavelmente existem até alguns relatos sobre mudanças de casa em que o gato preferiu ficar a mudar com seu dono. Mas por que isso acontece? Qual o fato em nossa história que fez com que os pobres bichanos se transformassem nesses seres tão vis e calculistas. Por que carregam essa fama de ingratos, trapaceiros, dissimulados, ligados à magia negra e estão mais interessados aos bens materiais (a casa) do que se dedicarem  a um dos mais nobres sentimentos humanos que é o amor, ou a um sentimento mais nobre ainda (para aqueles que têm pets) que é o amor ao dono?
Depois de muito meditar a respeito, acredito que consegui desenvolver uma tese que poderia explicar, ou pelo menos, criar uma discussão sobre o assunto. Julgo que toda essa polêmica tenha sido iniciada nos primórdios, com a domesticação do cão. Os cães sempre encararam a família humana como sua matilha e, por conseguinte, os integrantes dessa família, como seus iguais. Também sabemos do jeito “acalorado”, ou por que não dizer, “latino”, sem nenhum trocadilho infame, é claro, em que os cães demonstram a sua afeição ao dono. Chega a ser uma espécie de adoração. Do ponto de vista dos cães estamos, sempre, em algum lugar entre o excepcional e o divino. Quer se sentir importante, amado e respeitado, tenha um cão!
Já com os gatos a história é diferente. Os gatos, em sua maioria, são seres independentes e contidos na demonstração de seus sentimentos, isso de forma alguma significa que não sintam, contudo, demonstram menos, principalmente quando comparados aos cães. Sentem como italianos, mas demonstram isso como lords ingleses. Certa vez um amigo me disse: os gatos somente podem ocupar a posição de amigos em nossas vidas, já que não têm nenhuma função específica a exercer em nossa casa, diferentemente do que acontece com os cães que podem ser usados na segurança da casa, nos trabalhos em campo e até mesmo como pets. O relacionamento com um gato se assemelha muito a dividir um apartamento com um amigo em uma república. Em alguns momentos estamos juntos, mas em outros, cada um cuida de sua vida, e isso, de maneira alguma significa que se goste mais ou menos um do outro.
Julgo que essa independência dos gatos deixe alguns seres humanos inseguros (parece discussão de relacionamento, mas é verdade!), e essa insegurança faz com que nossos medos nos convença de nossa insignificância ante aos seus sentimentos. Existe uma história em que o cão, ao ver o seu dono, pensa: nossa, ele me dá um lugar para morar abrigado da chuva e do sol escaldante. Fornece alimentos a mim quando estou com fome.....tenho certeza, ele (o dono) deve ser um “deus”. Já com o gato, na mesma perspectiva, ele pensaria: nossa, ele me dá um lugar para morar abrigado da chuva e do sol escaldante. Fornece alimentos a mim quando estou com fome.....tenho certeza, eu devo ser um “deus”.
Independentemente dos motivos pelos quais tal mítica surgiu, um fato é certo: os gatos gostam do dono, e muito, diga-se de passagem. O problema é que estamos, na maioria das vezes, acostumados ao jeito “latino” de gostar dos cães e não compreendemos o jeito estóico do gato de levar a vida. Dez em cada dez tutores de gatos não têm dúvida de que são amados por seus bichados, logo, o que  nos resta é entender a forma de amar do gato. Não devemos buscar um gato com comportamentos de cão, isso não seria razoável, seria, provavelmente, uma idiossincrasia! Devemos esperar dos gatos comportamentos de gatos e pronto.  

 

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